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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A praia e o lodo

Tenho medo de falar que posso estar passando por uma "crise de caráter", mas se isso existe, posso mesmo estar passando por ela... tenho me sentido mal, invejoso, perverso, nojento, enfim coisas muito ruins, coisas que nunca tinha sentido antes; adjetivos que achei não se aplicavam a mim... até imagino o fato que desencadeou tudo isso, e tento refutá-lo pois sei que ele é falso, mas de qualquer maneira me fez conhecer meu lado obscuro. Aquele lado que ninguém quer conhecer de si próprio com medo de se julgar demais e com medo principalmente de se assutar demais consigo mesmo, mas é um lado que todos tempos e invariavelmente vamos nos deparar com ele mais cedo ou mais tarde.
Visitar o nosso lodo, chegar até ele é difícil, ruim, mal-cheiroso, mas importante... eu diria até necessário. A partir de nosso profundo, de nosso lodo, podemos ver que lá em cima existe uma praia, diferente desse lodo todo, mas que de alguma forma, tem uma relação com ele. Também tenho visto que a depressão pode não ser triste, mas apenas profunda. A profundidade não precisa ser ruim, mas geralmente ela é incômoda, dói e aí chegamos ao nosso tão temido lodo. Mas, quem consegue andar no chão nojento e pegajoso do lodo, comumente consegue andar na areia fina da praia e nadar no mar lá em cima, aparentemente tão diferente do lodo.
Viver apenas no lodo não é vida, não dá pra ver o sol. Porém as pessoas que só conhecem a praia podem se afogar com mais facilidade do que aquelas que tiveram a experiência de andar no lodo (mas não o tempo todo).

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Aquilo que esperam de nós

Essa semana aconteceu uma coisa um tanto quanto diferente. Soube, meio sem querer e por caminhos meio tortos, que tenho fama de metido. As razões que me foram elencadas para receber tal denominação não foram suficientes, o que me fez pensar nos valores do suposto "caluniador". Mas, enfim, esta situação um pouco delicada (que, confesso, veio a me tornar também um pouco prazerosa, em certo sentido) me fez pensar em algo que já ouvi muito falar, mas nunca tinha sentido na pele e portanto, nunca tinha percebido com tantos como agora: o modo como as pessoas nos vêem. E me surpreendi ao constatar que, constatemente, o modo como o mundo nos rotula e como nos entendemos a nós mesmos são diferentes.
Pôxa, eu fui chamado de metido! Logo eu, que me acho tão legal! hahaha... tudo bem, essa defesa pode ser na verdade encarada como uma denúncia, pois também nem sempre o que somos (ou o que achamos que somos) é o que parece ao mundo. E eis aí toda a nossa confusão social.
Quando você se mostra a alguém, pode até estar criando uma personagem, que perigosamente pode escapar de seu próprio controle e tomar conta da sua vida: isso é realmente muito perigoso, como coloquei. Porém, às vezes, estamos tentando ser nós mesmos (ou o máximo que nos aproximamos disso) e ainda não parece suficiente para a sociedade. Porque vivemos em sociedade e as inter-relações (feliz ou infelizmente) existem, são um fato e temos de fatidicamente (já que são um fato) aceitá-las. Porém nem sempre temos de aceitar as convenções sociais. Eis aí a nossa suposta "malandragem", ou seja, tentarmos escapar a conceitos, a imagens, a tudo aquilo que esperam de nós, tentando simplesmente nos aproximarmos daquilo que somos.
Mas, o que somos? Bem, não precisamos dizer o que somos, apenas sentir e expressar. Porque quando conseguimos raciocionar o que somos, já estamos nos adequando a um sistema que pode, muitas vezes, não ser o nosso. E aí sim, seremos rotulados, vistos, comentados, porque já somos "os outros", já viramos "outros" na boca e no conceito (que não vamos julgar aqui) dos "outros", e não somos mais nós mesmos.
Não precisamos do outro para nos classificar. Aliás, nem precisamos nos classifcar, pois isto já ns sugere outrem. Temos de ser nós mesmos, se quisermos. Ou, tentar nos aproximar o máximo possível do que tentamos ser. E já isso é tão difícil; imagine quando você ainda tem que ser você mesmo e se preocupar com a imagem que cria nos outros! Ah, não temos todo esse tempo, não é? Os outros que se danem! Tenho uma solução: sejamos nós mesmos, para que os outros se confundam quase sempre! Beijos a todos!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

As fases de cada um

Ontem mesmo eu ia escrever um texto extremamente pessimista sobre a vida, o viver, enfim, essas coisas que somos quase que obrigados a fazer se quisermos ainda continuar vivos. Nós temos escolhas e podemos escolher viver ou não. E quando falo assim, não é no suicídio direto e simples que penso, mas sim naquele tipo de suicídio que muitas vezes impomos a nós mesmos achando que esse é o necessário para viver. Quanta bobagem pensar assim e agir assim! E pior ainda: escrever sobre isso dando quase uma lição de moral, ou nem tanto, mas com o intento de acordar as pessoas em relação a este fato.
A questão é que somos feitos de fases. Não temos certeza de nada nessa vida, nem se vamos estar vivos amanhã e como estaremos. E todos somos assim. Não é privilégio (seria mesmo um privilégio?) de algumas poucas pessoas com certo grau de estudo ou mesmo de "iluminação" que umas se sentem na necessidade de pensar que têm, como se a luz escolhesse pessoas e ainda tivesse graus de intensidade ou não...
Mas, enfim o que acontece é que não sabemos quando estaremos bem ou mal. E somos todos diferentes. Não é bem bipolaridade. A não ser que todos sejamos um pouco bipolares que nem saibamos. E nem falha de caráter, assim como algumas pessoas insistem em falar (dizem agora até que cigarro é falha de caráter quando há pouco tempo se achava que era charme ou apenas um vício, refúgio para alguns que não vamos julgar aqui). Ou seja: todos estamos passíveis das mudanças de humor, ou melhor dizendo das fases ruins ou boas. Aliás, que só são ruins ou boas porque já incutimos nelas juízos de valor que elas mesmas não tinham. Humanizamos o que poderíamos ter de mais animal, de mais orgânico e de mais vivo. Ou animalizamos ainda mais nossa essência humana ao acharmos isso uma doença, uma loucura. Quando a loucura maior é mesmo não termos fases e nem mudanças e ficarmos estáticos. Como a primeira planta que pode ter ficado estática e por isso não a conhecemos: ela não evoluiu, ela não mudou, ela ficou como está e onde está e por isso morreu.
Ainda bem que nós mudamos, que somos voláteis, bipolares em parte (a ponto de não sermos necessariamente doentes), e temos fases. Essas fases não deixam de ter parcialmente a culpa de sermos um pouco o que somos e carregar nossa identidade mesmo que mutante, porque a vida muda.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Aquilo que não temos

Quatro dias depois, vamos a uma nova reflexão. O Carnaval passando, a grade festa de esquecimento do povo, mas lembrar é sempre o melhor remédio. Em quase todas as situações. Na política, na nossa vida social, amorosa também. E sempre cabe mais uma reflexão ao falarmos sobre lembrança e esquecimento: posse. Será que aquilo que temos é realmente assegurado, ou será que sempre é bom refletirmos sobre isso?
Pense bem: algo que temos é o nosso presente. Por mais que tenhamos confiança, determinação, a segurança e a estabilidade nem sempre nos acompanham. E isso é normal. Ser inseguro é normal! Em relação a muitas coisas, à nossa vida profissional, à nossa vida amorosa e por aí vai... só complica quando vemos que podemos estar errando.. mas como vamos saber, já que somos mesmo inseguros e a estabilidade só vem acompanhada mesmo de um concurso público?
Nem sempre aquilo que acreditamos ter, nós temos. E isso não é apenas culpa da insegurança. Muitas vezes as coisas que acontecem na nossa vida acabam nos mostrando que não somos apenas tão inseguros quanto pensamos e que no fundo até podemos estar certos. Certos de não termos aquilo que pensávamos ter. Seja um trabalho, um amor, qualquer coisa em qualquer situação.
Mas daí, chegamos a outra questão: desapontamento e orgulho. Desapontamento pela situação que nos era confortável (ou até mesmo prazerosa) e orgulho por nos julgarmos sábios o bastante para sermos inseguros. Pois se desconfiávamos de algo e esse algo acaba por tornar-se verdadeiro, por mais que soframos, acabamos nos orgulhando disso. Que loucura, né? Mas é nosso orgulho que acaba falando mais alto. Enfim, a questão é: adoramos ter, às vezes mais do que ser. E quando isso acontece ou se torna muito evidente, as coisas complicam para nós e acabam ferindo nosso próprio ego, aquilo que realmente temos. Ou melhor: será que temos a nós mesmos, se não nos conhecemos tão bem quanto imaginávamos?

No post passado, falei que o Carnaval era uma alegria quase irresponsável. Quero corrigir uma possível injustiça que eu possa ter feito: existe muita gente que leva o Carnaval a sério, que são as pessoas que trabalham nele. Quero parabenizar a todos que fazem desta festas um grande espetáculo de alegria, cor, formas e música. São verdadeiros artistas da ilusão. O que não podemos fazer é deixar esta ilusão (não apenas a do carnaval) nos tomar a vida inteira. Se conseguirmos fazer isso, ótimo; senão paciência.
Beijos a todos!

domingo, 27 de janeiro de 2008

Aquilo que desejamos

Ouvi certa vez num filme que temos de tomar cuidado com aquilo que desejamos. Fiquei pensando: realmente temos de ter este cuidado. Nem sempre aquilo que desejamos é o melhor para nós, pois não nos conhecemos o suficiente para podermos fazer uma escolha acertada. Mais uma vez nos voltamos para o auto-conhecimento e para a busca da felicidade. Mesmo sabendo que este assunto é de suma importância para nossa vida.
Mas realmente temos de ter cuidado com queilo que desejamos e escolhemos. Às vezes aquilo que achamos ser o melhor, nem sempre o é. E às vezes nos deparamos com pessoas, coisas ou situações que, à primeira vista, não nos interessam ou não são do nosso gosto, mas que depois acabamos por verificar que podem ser interessantes ou mesmo pode ser aquilo que precisávamos ou até que gostamos, de alguma maneira que ainda não conhecíamos.
Em algumas situações, nossos desejos nos pregam peças. Até porque um desejo é algo instável, um desejo quase nunca se econtra no tempo presente, mas no futuro, como algo que vai acontecer, que vai se realizar, já perceberam? E, sendo assim, não sabemos se ele será bom, ou o melhor para nós naquele momento. E às vezes, este desejo realmente não é bom. A vida, então, se encarrega de fazer-se presente e, por vezes, escolher por nós (por mais que sempre tenhamos a possibilidade da escolha própria) e acaba mostrando que nossos desejos nem sempre são os mais acertados. E, quando aceitamos os presentes que a vida nos dá (nos questionando algumas vezes, pois é bom, mas aceitando) vemos que o futuro nem sempre é vislumbrado como queríamos, mas como deveria ser, desde que seja para nossa felicidade. Ou para nosso crescimento nem sempre feliz, mas sempre essencialmente bom.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Medéia terá que morrer?

Estava pensando: será que Medéia terá que morrer para que eu possa viver em paz? Parece engraçado, ou até mesmo bizarro, mas é apenas um exemplo (eu mesmo sou apenas um exemplo disso tudo). Quem conhece a história, sabe quem é Medéia. Ela é uma personagem literário-mitológica, já usada por Eurípedes e Sêneca, sendo a mulher que mata os filhos por amor e vingança ao marido que escolheu uma nova esposa mais jovem. Eu tomei Medéia como um exemplo, como um protótipo. Em algumas vezes na nossa vida acabamos por incorporar algo ou alguém que não somos, mas que parecemos ou pretendermos ser, por inúmeras razões: aceitação de um grupo, auto-aceitação ou até mesmo auto-conhecimento.
Chegamos a um ponto importante: auto-conhecimento. É muito difícil responder a simples pergunta: "quem sou eu?". Tomamos consciência que ela não é tão simples assim. Às vezes, pelo afã de querermos saber quem somos, metemos os pés pelas mãos e nos iludimos a nós mesmos, criando personagens para a nossas vidas, tentando assim, preenchermos uma lacuna ainda vazia que é o nosso auto-conhecimento e respondermos aquela pergunta que pareceu tão simples. Então, nos espelhamos na Medéia, no Édipo, no Romeu, no Hamlet, na Blanche du Bois, na Soraia Montenegro, na Bia Falcão e até mesmo no Harry Potter.
Parece engraçado (seria cômico se não fosse trágico), mas é o que a maioria de nós fazemos mesmo que inconscientemente. E quando fazemos isso inconscientemente, creio que seja ainda pior, pois nem sabemos que estamos nos mascarando. Pior ainda quando a máscara já grudou à nossa cara e nem sabemos mais quem é personagem e quem é pessoa.
Buscar e encontrar a nossa personalidade (não as personagens dela, mas a essência) é realmente muito difícil e nem sempre conseguimos nosso intento. Por isso vamos fingindo que somos nós mesmos e, de vez em quando, nos percebemos seres reais. Mas aí ainda cabe a pergunta: seres reais de que realidade? Será que temos que guardar os livros na estante e as personas dentro de nós para tentarmos ser nós mesmo? Será difícil isso? Será que Medéia e outras personagens que revivemos tem que se despedir de nós, para que assim possamos viver?